|
Grande Oriente do Distrito Federal
CAMINHOS DO BEM
A arte das frustrações e das realizações
Sêneca, o Filósofo das Frustrações, teve uma vida repleta de vitórias e
derrotas, das quais extraiu a sabedoria de usar as adversidades para
pavimentar as realizações
Por Hugo Studart
O Destino costuma ser generoso. Mas é igualmente traiçoeiro.
Qual dos senhores, meu caros irmãos, não coleciona frustrações? Um grande
sonho sempre jogado para o porvir, um desejo paupável, mas nunca efetivado,
talvez um filho que seja menos do que o esperado, um emprego almejado, um
aumento de salário sempre adiado… Todos têm lá suas frustrações.
Foi Sêneca quem certa feita escreveu: “A verdadeira grandeza é
ter em si a fragilidade de um homem e a segurança de um Deus”. O filósofo
romano, um dos ícones do estoicismo, teve uma longa vida de vitórias e de
derrotas. Buscou na análise das suas frustrações sabedoria para consolar os
percalços do Destino. E força para pavimentar suas próprias realizações.
Sêneca deixou um legado de ensinamentos sobre como aproveitar as
adversidades para realizar antigos desejos – aquilo que o ditado popular
chama de “fazer do limão uma limonada”. Ganhou a alcunha de “Filósofo das
Frustrações”.
MILAGRES DAS ADVERSIDADES
Lucius Sêneca foi um dos grandes de seu tempo. Nasceu no ano 4
AC, teve a sorte louca de viver no apogeu do império romano e de morrer logo
no início da sua decadência, quando Nero, um ex-discípulo, tomado de um
daqueles ataques de paranóia, decretou sua morte. Serenamente, aos 69 anos,
Sêneca cortou as veias dos tornozelos e de trás dos joelhos. Como demorou a
morrer, inspirado na morte honrada de Sócrates, pediu cicuta. O pintor
Jacques-Louis David imortalizou a cena em uma tela de primeira grandeza, “A
Morte de Sêneca”.
O filósofo legou uma obra vasta que trata de temas como
sabedoria, amizades, alegrias, felicidade e sobre a índole dos homens. A
parte mais interessante do seu pensamento diz respeito às frustrações. Ele é
o grande filósofo dos homens frustrados.
Sêneca escreveu que as “boas coisas que acompanham a
prosperidade são para ser desejadas; mas as boas coisas que acompanham a
adversidade são para ser admiradas”. Em seus “Ensaios Civis e Morais”, o
filósofo diz que se os milagres se constituem de fato um mando sobre a
natureza, aparecem eles com maior frequência na adversidade.
Durante toda sua vida Sêneca enfrentou ou testemunhou
calamidades. Viu Calígula ascender ao trono e depois um próprio discípulo,
Nero, enlouquecer no poder. Viu Roma ser devastada pelas chamas e Pompéia
por um terremoto. A vida pessoal do filósofo foi também de muitas perdas.
Ganhou muito, é claro. Foi senador, teve fama, dinheiro e poder. Comprou
terras e vilas, colecionava mesas de cedro com pés de marfim e manteve um
cotidiano de muito conforto material, apesar de pregar o estoicismo
(tratarei desse aparente paradoxo em outro artigo).
Mas Sêneca também foi tragado pelas intrigas da corte. Chegou a
ser exilado na ilha da Córsega, um dos pontos mais inóspitos do império
–onde mais tarde nasceria Napoleão. Nos tempos do imperador Cláudio, ele
virou joguete nas mãos da imperatriz Messalina, que havia armado um complô
para livrar-se da irmã de Calígula, Júlia Livila, acusando-a de adultério. E
Sêneca de ser o amante. Repentinamente, Sêneca se viu privado da família,
dos bens, dos amigos, da reputação, da carreira política – e enviado para a
Córsega.
Ao escrever sobre a vida do pensador romano, Allan de Botton
(“Consolações da Filosofia”, Rocco, 2000) revela que Sêneca alternou
períodos de autocensura e outros em que era tomado pela amargura. Qual de
nós já não experimentou essas sensações diante de uma derrota? Muitas vezes
o filófoso reprovou a si mesmo por não ter interpretado corretamente o
momento político. Qual de nós já não se contorceu de lamentos diante de um
erro?
Por conta das muitas experiências negativas, Sêneca acabou
tecendo um vasto repertório de pensamentos sobre as frustrações – e de
respostas sábias, serenas e sensatas a elas.
O ponto central de sua obra é a ideia de que suportamos melhor as
frustrações para as quais nos preparamos, e que somos atingidos
principalmente por aquelas que menos esperamos e não conseguimos
compreender. Ou seja, se conseguirmos prever as adversidades que virão,
quando elas chegam, parecem menos dolorosas. Se forem inesperadas, a dor da
frustração é maior.
Sêneca conhecia um milionário chamado Védio Póllio, amigo do
imperador Otávio Augusto, cujo escravo deixou cair uma bandeja com copos de
vidro durante uma festa. Védio ficou tão furioso com o som dos vidros se
quebrando que mandou matar o escravo, de forma cruel, atirando-o num fosso
cheio de lampreias. Com ironia, Botton comenta que “Védio acreditava em um
mundo no qual copos não se quebram em festas”; portanto, ficou extremamente
frustrado.
A ARTE DAS REALIZAÇÕES
Com sabedoria, Sêneca nos aconselha a encarar de frente os
desejos não realizados. E uma vez que encaramos racionalmente as
conseqüências da não realização de um desejo, teremos grandes probabilidades
de descobrir que os problemas fundamentais são mais modestos que as
ansiedades que geraram.
Como Sêneca, a maior parte dos senhores, caros irmãos, decerto
tem uma vida intensa em realizações e decepções. Há vitórias e derrotas nas
muitas vidas de cada um – seja a vida pessoal, a familiar, a espiritual, a
intelectual, a financeira ou a vida profissional...
Se paramos para contabilizar os fatos de cada uma das nossas muitas vidas
nesta vida, provavelmente constataremos mais vitórias do que derrotas. Como
nas vidas de Sêneca. Mas sempre haverá um grande desejo ainda não realizado
– talvez comprar uma mansão, ou quem sabe ser mestre instalado -- uma
frustração imensa que, pela sua dimensão, é capaz de ofuscar as muitas
vitórias.
Sêneca perguntaria: o que os senhores estão fazendo de concreto
para realizar seus desejos? Quais os obstáculos reais e imaginários e como
suplantá-los? Quais as consequências emocionais e materiais para a não
realização? Respondidas essas questões, ensina ainda o filósofo, teremos
grandes probabilidades de descobrir que os problemas fundamentais são mais
modestos que as ansiedades que geraram. Ou seja, se não realizei esse ou
aquele desejo, é porque até este instante não os havia encarado de frente.
Portanto, permaneciam no doloroso campo das frustrações. O que fazer? Ora,
fazer, simplesmente agir, aponta Sêneca.
Mas somente se o desejo for palpável e se conseguirmos prever as
adversidades que poderão vir – ou as que inevitavelmente virão. É preciso
estarmos preparados, principalmente, para os golpes do Destino imprevisíveis
ou que não conseguimos compreender. Assim, ensina Sêneca, se conseguirmos
prever as adversidades que virão, quando elas chegam, parecem menos
dolorosas. Se forem inesperadas, a dor da frustração é maior.
" Hugo Studart, é jornalista, historiador e membro do GODF ."
|